Nem sempre, ao se produzir um texto (verbal ou não verbal), há correspondência direta entre o que se disse e o que se pretendeu dizer. Por exemplo, quando se diz a um atacante que desperdiçou três pênaltis numa mesma partida “Você é craque! Sabe bater pênaltis”,claramente não há adequação entre o dito e o que se desejou dizer. Estilisticamente, o autor do texto desenlaçou o discurso da sua real intenção. Naverdade, ele quis dizer que o atacante era péssimo, que entraria para o Inacreditável Futebol Clube, porém, produziu o discurso contrário. O receptor, assim, claramente percebe a intenção do autor, mesmo que haja um conflito entre os dois discursos: o proferido e o entendido.

São vários os recursos que possibilitam tal construção, tal oposição. Monologarei sobre alguns deles, os que possuem aspectos introdutórios.

O primeiro e mais famoso recurso é a chamada ironia ou antífraseNele, profere-se determinado discurso, quando – na verdade – se diz o contrário do que foi produzido, como no exemplo do “grande” atacante do primeiro parágrafo. Afirmou-se algo que, na verdade, o produtor queria negar. Outra ilustração desse processo pode ser observada quando um marido descobre, depois de casar, que sua recente esposa possui defeitos irreversíveis e insuportáveis e diz: “O bom é que eu fiz a escolha certa. Casei com uma mulher perfeita.”  Na verdade, o pobre homem está arrependido da escolha que fez para sua vida.

Outro método interessante que se deve relatar é o que se chama lítotes. Nesse expediente, diz-se menos para dizer mais. Isto é, atenua-se o que se quer dizer, para que o leitor entenda de maneira mais forte e enfática. Por exemplo, um singelo passeio com a filha de 12 anos de idade no shopping despertará em nós os desejos mais primitivos de ódio e angústia, todavia, em vez de ofender a pobre menina diretamente, o pai dirá “você não é nada consumista, hein”. A intenção de seu discurso era enfatizar e até exagerar o adjetivo consumista, mas o autor o faz de maneira atenuada.

O terceiro e não menos importante recurso é a chamada preterição. Ocorre quando se diz alguma coisa e ao mesmo tempo se nega ter intencionado dizê-la. Por exemplo, um professor que goste de revelar em todas as aulas os seus feitos, seus salários, suas publicações, diz: “Sou servidor público federal, escrevi três livros, ganho uma fortuna e tenho os carros mais caros do mercado. Não quero, no entanto, vangloriar-me”. Será?

Há também o famoso eufemismo, que ocorre naquele conhecido caso em que um político pratica o roubo para ficar ainda mais rico. Por questões de prestígio social, eufemisticamente, a imprensa não divulga que ele roubou, e sim que ele “enriqueceu por meios ilícitos”dá até vontade de fazer o mesmo de tão bonito, suave e agradável que é esse nome.

É interminável o número de recursos linguísticos que todas as línguas possuem e, diante do que foi acima exposto, temos a certeza da importância da interpretação textual, tanto em âmbito escrito, quanto em âmbito falado.

 

Níveis de Linguagem – variação linguística

A Linguagem não se dá sem o aprendizado de uma língua, esta é apenas uma parte daquela. Para a grande maioria das pessoas, expressar-se corretamente significa não cometer erros de ortografia, concordância verbal, acentuação. Será isso verdade?

A linguagem possui normas, princípios que precisam ser obedecidos para que um discurso seja compreendido por todos. Geralmente, pensa-se que tais regras dizem respeito apenas à Gramática Normativa. De certa forma, é verdade. A gramática visa a desenvolver um caminho de expressão da linguagem o qual seja a todos acessível – por meio do estabelecimento de regras, é verdade. Por exemplo, não importa a idade, a posição socioeconômica ou o grau de escolaridade, a variante da língua utilizada por um jornal (na televisão, na internet ou no papel) é acessível aos falantes de língua portuguesa, sem distinção.

Para a grande maioria das pessoas, expressar-se corretamente, em língua portuguesa, significa não cometer erros de ortografia, concordância verbal, acentuação etc. Há, no entanto, outro erro, mais comprometedor do que o gramatical, que é o de inadequação de linguagem ao contexto.

Em casa ou com amigos, nós empregamos uma linguagem mais informal que em provas ou em uma entrevista para emprego. Em uma conversa com os avós, por exemplo, não convém utilizar algumas gírias, pois eles poderiam ter dificuldades em nos compreender. Em uma dissertação solicitada por vestibular ou concurso público, já precisamos empregar um vocabulário mais formal. Esses fatos nos levam a concluir que existem níveis de linguagem. O que define qual nível de linguagem deve ser adotado é o contexto no qual o falante se encontra inserido.

Vejamos exemplos de níveis de linguagem:

  1. NÍVEL FORMAL-CULTO OU PADRÃO:trata-se de uma linguagem mais formal, que segue os princípios da gramática normativa. É empregada na escola, no trabalho, nos jornais e nos livros em geral. Observe este trecho de jornal:

A polêmica não é nova, nem deve extinguir-se tão cedo. Afinal qual a legitimidade e o limite do uso de recursos públicos para salvaguardar a integridade do sistema financeiro? (…)

( Folha de São Paulo, 14 de março de 1996, Editorial)

  1. NÍVEL COLOQUIAL-POPULAR:é a linguagem empregada no cotidiano. Geralmente é informal, incorpora gírias e expressões populares e não obedece às regras da gramática normativa. Nesse caso, residem as variações regionais, formas estabelecidas culturalmente em determinada região como uma marca identitária. Veja estes exemplos:

Sei lá! Acho que tudo vai ficar legal. Pra que então ficar esquentando muito? Me parece que as coisas no fim sempre dão certo.

Estou preocupado. (norma culta)

Tô preocupado. (língua popular)

Tô bolado. (gíria, limite da língua popular )

  1. PROFISSIONAL OU TÉCNICO: é a linguagem que alguns profissionais, como advogados, economistas, médicos, dentistas etc. utilizam no exercício de suas atividades. É muito comum o uso de abreviações que, dentro de um determinado contexto, produzem perfeitamente o sentido desejado.

Por meio da r. Sentença proferida nos presentes autos (fls. 137/140), foram julgadas irregulares a Inexigibilidade de Licitação e o decorrente Contrato nº 051/ […] O interessado, por via de seus procuradores, solicita nova prorrogação de prazo para atendimento à determinação desta v. Corte.

  1. ARTÍSTICO OU LITERÁRIO:é a utilização da linguagem com finalidade expressiva pelos artistas da palavra (poetas e romancistas, por exemplo), alguns gramáticos já incluem este item na linguagem culta ou padrão.

Assim levou algum tempo, arquejando; até que afinal a respiração lhe foi aos poucos amortecendo na garganta, e até que os olhos espremeram a última lágrima e os pulmões sopraram o derradeiro fôlego. (Machado de Assis)

Dominar uma língua, portanto, não significa apenas conhecer normas gramaticais, mas, sobretudo empregar adequadamente essa língua em várias situações do dia-a-dia: na escola, no trabalho, com os amigos, num exame de seleção, no trabalho. Segundo Evanildo Bechara (meu célebre Mestre), “O falante deve ser poliglota em sua própria língua”.

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